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08/03/02
ENTRE A ARTE E O JORNALISMO
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ENTREVISTA COM CHRISTIAN CRAVO

Por Érica Rodrigues

Ele tem apenas 27 anos e já acumula vários prêmios e exposições importantes no currículo, além de uma incursão pelo cinema, fazendo still para “Abril Despedaçado”, de Walter Salles. Sua última conquista foi a bolsa concedida pela Guggenheim Memorial Foundation para a segunda etapa do projeto “Espírito Oculto”. O gosto pela fotografia e o fascínio pelos mistérios humanos, talvez tenha herdado do pai. Christian Cravo, filho de Mario Cravo Neto, um dos maiores nomes da Fotografia brasileira, vem trabalhando no primeiro grande projeto de sua vida: a documentação das manifestações religiosas de diversos povos do planeta, partindo de uma característica comum a todas elas: a simbologia da água. A primeira fase do projeto traz imagens sinceras e livres do cotidiano religioso do sertanejo nordestino. A segunda, já em andamento, mostra cenas do Hinduismo e do Vodou, realizadas na Índia e no Haiti.
Em entrevista ao
Fotosite, Chistrian Cravo comenta suas crenças pessoais, e fala da dedicação aos grandes temas, a influência da Bahia, o limiar entre o jornalismo e a arte.

Por que “Espírito Oculto”? Como foi a primeira fase do projeto? E o que você já tem concluído da segunda fase?
A primeira fase do projeto, já concluída, chama-se Irredentos [livro lançado em 2000]. A seca faz brotar a fé do sertão brasileiro, e a água lava o pecado. Por isso o projeto chama-se “Espirito Oculto”. A água como um elemento de lavagem espiritual, e isso é o que liga as duas fases. Tive a oportunidade de fotografar o maior festival religioso do mundo, o “Maha Khumb Mela”, no leito do rio Ganges, em Allahabad no norte da Índia. E cerimônias pouco conhecidas como Saut d'Eau e Plain du Nord, ambas no Haiti. Este ano, ainda volto lá para dar continuidade ao projeto. Ainda falta muito, outras terras, outras religiões e outros povos.

Você se dedica apenas a longos projetos?
Sim, sempre projetos longos. Isso não tem nenhuma razão em particular, essa é a maneira em que sei me expressar.

É um trabalho jornalístico?
É um trabalho que tem um prisma jornalístico, e ao mesmo tempo uma viagem visual pela cultura e religião destes fantásticos países.

Sebastião Salgado, mesmo realizando verdadeiras obras primas, dignas de freqüentar os grandes museus e figurar ao lado de grandes nomes da arte, considera-se jornalista, e não artista. Como você vê essa relação entre a arte e o jornalismo, no universo da fotografia?
Tudo que é criado com intelecto é arte. Pode ser boa ou ruim, mas é arte. Salgado não se considera "artista" por duas razões, na minha opinião. Primeiro ele vem de um background de executivos, de economistas e empresários. Dois, ele trata de temas concretos e realistas, narrados em forma de "projeto" com início e fim . Geralmente esse tipo de "aproach" é mais ligado ao jornalismo. Acho que por isso ele não se considera um artista, embora ele seja.

A religião é um tema recorrente para arte e para a ciência. E, curiosamente, nos deparamos freqüentemente com excelentes trabalhos que refletem sobre essa temática realizados por ateus, descrentes. (A catedral de Brasília é projeto do mais convicto dos ateus, não é mesmo?) Obviamente essa não é uma condição para bons trabalhos, mas você acredita que o distanciamento possa render boas leituras, reflexões mais imparciais?
Sim. Resta engolir esse papo furado de ser ateu ou não. Claro que uma visão mais neutra ou distanciada pode ajudar a entender, mas também sem acreditar não tem como se aproximar, ir além de um certo ponto. Todo mundo acredita em algo. Pode não ser na re - encarnação ou em algum Deus com cabeça de elefante (Ganesh). Mas inevitavelmente nós somos movidos pela fé, nem que seja a crença na sua própria existência ou na sua arte caso de muitos artista. Na minha opinião até o amor é uma espécie de religião.

Qual a sua relação com a religião? Desde quando você despertou interesse por essa temática?
Eu acredito que tudo é interligado. Uma ação aqui pode afetar uma vida do outro lado do mundo e que tudo que a gente faz retorna para nós mesmos, talvez não da mesma forma, mas inevitavelmente retorna. Isso se chama carma. Não acredito na religião da forma tradicional. Infelizmente o ser humano é pobre demais, é corrupto e egoista. Na sua grande maioria mal interpretam as escritas originais. Quando comecei a viajar pelo sertão não tinha nada disso em mente. Simplesmente quis aliviar as tensões da única forma que sei: fotografando. Foi aí que aos poucos nasceu um interesse pelo tema.

A Bahia exala misticismo, o sincretismo religioso está arraigado na cultura baiana. Isso influencia seu trabalho?
Não. apesar de ter nascido aqui tenho pouco apego com as tradições da terra. Metade de minha família vem dos países nórdicos. É daí que vem meu interesse pelas viagens, longas e demoradas.

E o cinema? Como surgiu para você? E como foi fazer o still de Abril Despedaçado?
O Walter [Salles] viu um exposição minha e me ligou. Fazer o still de “Abril” foi fantástico. Não pelo trabalho em si, mas pela equipe e, acima de tudo, pelo diretor. Além do mais como meus projetos são caros, é uma grana estável que pode ajudar a custear algumas viagens.
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